Burnout criativo, pausas e retornos

Entre um voo e outro, aguardo sentada em um cantinho perto de uma tomada para carregar meu laptop - mas quem realmente está precisando de bateria sou eu. Estou voltando para Estocolmo depois de alguns dias no Brasil, visitando minha família e comendo o feijão da minha mãe. Enquanto o laptop carrega, observo as pessoas caminhando até a ampla parede de vidro, puxando o celular para fora da bolsa e fotografando o nascer do sol entre os aviões. Eu mesma fiz isso minutos antes. Notei então que todos carregavam a mesma imagem, no mesmo ângulo, guardada em seus celulares.

Deletei a foto imediatamente.

Sentei aqui para escrever sobre a minha volta ao blog. Tomei a decisão de voltar a blogar algumas semanas atrás. Pensei em algumas ideias nos últimos dias, anotei bullets points durante o primeiro voo e agora, finalmente, bato os dedos enferrujados e hesitantes no teclado. As palavras não fluem como antes, mas tudo bem. Não quero exigir demais dessa relação entre mim e o blog. Já me cobro demais em todas as outras áreas da minha vida.

Cheguei à conclusão de que vivi um burnout criativo por um longo período sem sequer perceber - como todo bom burnout costuma ser. Passei os últimos dez anos criando conteúdo com diferentes propósitos. Um breve resumo desses projetos: em 2016, criei meu primeiro blog; alguns anos depois, uma zine impressa com uma amiga; mais tarde, uma conta no insta para divulgar meus serviços como profe de inglês; depois, um curso de inglês com outro profe e, ao longo de tudo isso, produzi uma quantidade imensa de conteúdo para as redes. Foi por isso que desativei o blog no ano passado. Chegou a um ponto em que eu sentia ansiedade e estresse toda vez que precisava produzir algo.

Havia ainda outro motivo: a angústia de escrever sobre mim mesma. Eu me sentia estupidamente egocêntrica por compartilhar fragmentos dos meus dias, mesmo sabendo que a essência de um blog pessoal é justamente falar de coisas… pessoais (). O arrependimento vinha logo depois de clicar em “publicar”, e as vozes na minha cabeça começavam a ruminar: quem vai querer ler sobre a minha vida? Vão achar que estou querendo atenção. Quem ela pensa que é?

A insegurança foi tanta que minha escrita se tornou estranha. Eu buscava as melhores ideias, o melhor arranjo de palavras, as descrições mais elaboradas e, nessa cobrança, deixei de lado o que realmente importa: o simples prazer de escrever, compartilhar e criar. Afinal, não seria essa a essência de um blog?

Fiquei quase um ano sem blogar. Nesse intervalo, canalizei minha energia em outras coisas. Continuei pintando aquarela, lendo livros, estudando sueco ou apenas existindo. Foi difícil no começo. Eu chegava em casa depois do trabalho já no modo “eu deveria estar criando algo”. O problema é que esse algo já não era mais para mim, mas para os outros. A criação virou cobrança, e mesmo quando eu já não precisava criar, meu corpo e minha mente ainda estavam programados para isso.

Com o tempo, fui me acostumando. Peguei o jeito. Passei a chegar em casa e agir de acordo com as minhas vontades: ler um capítulo (ou dois ou três ou seis) da saga A Court of Thorns and Roses, fazer um bolo de maçã, deitar no sofá com as pernas pra cima. Para mim mesma, sem propósito externo.

Foi esse relaxamento que eu precisava para que meu caldeirão criativo - antes vazio - voltasse a borbulhar. Quando a vontade de blogar reapareceu, eu me questionei várias vezes: eu realmente quero isso? E, se sim, por quê?

Dessa vez, não quero gastar energia tentando encaixar as melhores palavras, nem dar espaço para angústias egocêntricas. Estou aceitando que este é um blog pessoal e que, talvez, minhas experiências e reflexões tenham o seu valor.

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